Não se conhece ainda o conteúdo das acusações. Aparentemente, Funaro entregou aos procuradores documentos e extratos bancários para comprovar seus serviços prestados ao grupo que, além de Temer, inclui os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco, além dos ex-ministros Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves.

Politicamente, a chance de a nova denúncia prosperar é ínfima. Se nem uma mala de dinheiro, carregada por quem Temer indicara como intermediário, bastou para que a Câmara aceitasse abrir investigação, que outra acusação convenceria os deputados?

Mesmo assim, Janot insiste em concluir a nova denúncia. Atrairá os holofotes, mas só conseguirá desmerecer as acusações – que tudo indica ser sólidas. Também fortalecerá o argumento daqueles que veem perseguição nas investigações contra Temer.

“Sabemos que tem gente que quer parar o Brasil, e esse desejo não tem limites”, afirmou Temer em mensagem divulgada ontem. Pelos números divulgados ontem para o Produto Interno Bruto (PIB), o Brasil está mesmo parado. Mas Janot nada tem a ver com isso.

Quem tem tido dificuldade para tirar o país do lugar é o próprio governo. O buraco fiscal deste ano só aumenta. É a cada dia menos provável que sejam aprovadas capazes de diminuí-lo, como a privatização de hidrelétricas ou o refinanciamento de dívidas das empresas com a Receita Federal (Refis). Nada disso pode ser atribuído a Janot, muito menos a Funaro.

Ligado ao ex-deputado Eduardo Cunha, Funaro é descrito como uma espécie de achacador, especializado em extorquir dinheiro de empresas para financiar o grupo político do PMDB. Seu nome já apareceu nos escândalos da Bancoop, do Banestado, na Operação Satiagraha e, naturalmente, no mensalão.

No mensalão, operava para o então Partido Liberal, de Waldemar da Costa Neto. Fechou na época um acordo de colaboração com o Ministério Público, mas seus crimes não pararam. Exibicionista, costumava aparecer em Vargem Grande Paulista, cidade natal de sua mãe, pilotando uma Lamborghini. Dava rasantes de helicóptero sobre a casa de um jornalista local que publicava reportagens incômodas.

Foi preso no ano passado como parte de um desdobramento da Operação Lava Jato, a Sépsis, que apura o esquema para desvio de verbas da Caixa. Comandado por Cunha, o esquema foi detalhado nas delações premiadas do ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto e dos executivos da JBS.

Funaro derrotou Cunha na corrida para apresentar delação. Ambos tinham informações comuns sobre os esquemas que operaram em conjunto para o PMDB. Mas Cunha, naturalmente, sabia muito mais, pois cuidara pessoalmente da eleição de um grupo de aproximadamente 100 deputados, cujos votos controlava no Parlamento.

Era mais difícil negociar com Cunha, que procurava ditar da cadeia os termos da própria delação. Na pressa para apresentar sua nova denúncia contra Temer, a Procuradoria Geral da República (PGR) preferiu fechar com Funaro. Sua delação deverá ser homologada nos próximos dias pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin.

Daqui a poucas semanas, Janot sairá da PGR para ceder lugar a Raquel Dodge, indicada por Temer. Ele perderá seu bode expiatório favorito. Mas os fatos não mudam. Persiste a dificuldade política do governo para levar adiante seu programa econômico. Persiste a corrupção escandalosa do grupo do PMDB. Persiste o cinismo hipócrita de quem a nega. Persiste, sobretudo, o "desejo sem limites" de acabar com a Lava Jato.