Curar as feridas do passado para indicar caminhos para o futuro. Vinte e quatro dias depois da eliminação da Seleção na Copa do Mundo, o técnico Carlo Ancelotti encarou nesta quarta-feira os microfones para um pacote completo: autocrítica, definições, convicções e projeções. O Brasil terá quatro anos para se equilibrar entre a necessidade de renovação e a urgência por títulos, e o italiano sabe disso.
Ao mesmo tempo em que olha para trás e reflete sobre o primeiro ano de trabalho, que culminou com a derrota para a Noruega nas oitavas de final do Mundial, Ancelotti decreta a Copa América de 2028 como objetivo emergencial para o Brasil. Convicção fruto de três semanas de "luto" no Canadá para entender os impactos do adiamento do sonho do hexa:
— Não foi um período fácil, por causa da tristeza, da decepção da derrota. É uma derrota diferente, porque é uma derrota em uma Copa do Mundo. Você não tem tempo como em um clube de reagir, de recuperar. E a derrota fica dentro mais tempo.
Carleto chegou de volta ao Rio de Janeiro na terça, começou a planejar o ciclo com o departamento de seleções e iniciou o processo de observação para a convocação de setembro, quando o Brasil vai encarar Austrália e Índia em amistosos. Uma decisão está tomada: poucos jogadores acima dos 30 anos terão sequência na Seleção, e muitos deles tiveram o fim de ciclo decretado pelo italiano:
— Acho que com essa Copa do Mundo termina uma geração de jogadores muito importantes. Começando por Neymar. Passando por Danilo, Casemiro, todos esses jogadores que na Copa do Mundo tinham mais de 30 anos.
— Vamos mapear os novos jogadores que possam entrar não digo na próxima Copa do Mundo de 2030, mas que possam já ser competitivos no primeiro objetivo, que é a Copa América de 2028.
Entre os mais experientes, Marquinhos é um dos que Ancelotti entende ter importância em uma reconstrução necessária, mas não radical:
— Não vou dizer que vou mudar todos os 26. Vamos manter alguns jogadores importantes, que podem seguir com a linha de trabalho, como o Marquinhos, para dizer um nome. Acho que é importante que fique para dar um sinal de continuidade ao trabalho. Mas a ideia é mudar, botar uma nova geração.
Em bate-papo de pouco mais de 30 minutos com o ge, Carlo Ancelotti passou a limpo o um ano no comando da Seleção, admitiu erros principalmente diante dos noruegueses, e revelou planos para 2028 (sempre a Copa América como ponto de corte).
Confira a íntegra da entrevista:
Como o senhor aproveitou esse período para analisar o que aconteceu na Copa do Mundo?
— Depois de uma derrota, acho que é importante tomar um tempo para pensar, para tentar recuperar, para tentar olhar com atenção o que aconteceu. E olhar com atenção o futuro. Por isso, depois da derrota eu preferi ir ao lugar onde está a minha família para descansar, recuperar, pensar. E compartilhar ideias com a comissão e com a CBF para tentar melhorar o que aconteceu e projetar o novo grupo no futuro. Não foi um período fácil, por causa da tristeza, da decepção da derrota. É uma derrota diferente, porque é uma derrota em uma Copa do Mundo. Você não tem tempo como em um clube de reagir, de recuperar. E a derrota fica dentro mais tempo. Isso é o que aconteceu nesses dias. Mas agora voltamos ao trabalho, voltamos às avaliações, voltamos a pensar em fazer um novo grupo, com jogadores jovens. Então acho que vai ser um trabalho interessante.
Ancelotti conta que já conversou com alguns veteranos que vão deixar a Seleção
No segundo tempo, teve a entrada do Neymar, o Endrick foi para a ponta, você perde o Rayan, o Martinelli também saiu, o Matheus Cunha. Ali o senhor acha que foi a chave?
— Acho que ali mudou algo no time. Perdemos um pouco o controle pelo lado. Com a entrada do Neymar, eu pensava em retomar o controle do jogo. Botar mais qualidade na frente para ganhar o jogo. Isso é parte de uma decisão. Você tem que tomar uma decisão em um jogo eliminatório. É como contra o Japão. Às vezes as decisões são corretas porque o resultado te premia. Às vezes as decisões são muito ruins porque o resultado não te premia.
Mas a sensação do senhor no jogo, quando a Noruega ficava mais com a bola, o senhor sentia que ali já não estava legal?
— Eu sentia que precisava mudar algo no time. E por isso botei o Neymar, para ter mais qualidade na frente. É um erro avaliar um trabalho só com o resultado. O resultado contra a Noruega foi muito ruim para todo mundo, muito decepcionante, muito triste. Mas depois, atrás disso, você tem um trabalho de um ano, uma preparação para a Copa, que foi, todos pensamos, não só eu, um trabalho bem feito. Foi um trabalho muito rápido, com muitos problemas, porque tivemos oito lesões no período entre março e junho. Incluindo Militão, Rodrygo, depois tivemos Estêvão lesionado. Isso mudou um pouco a estrutura que em pouco tempo estávamos preparando.
Tirando o jogo contra a Noruega, o que o senhor teria mudado nesse primeiro ano de trabalho?
— Acho que o trabalho foi bem feito. Porque a avaliação dos jogadores para preparar a lista dos 26 foi uma avaliação correta. Eu acho que os 26 eram esses que deveriam jogar a Copa do Mundo. E depois obviamente você tem que considerar que no momento certo eu posso dizer que foi um erro.
O senhor passou a receber mais críticas depois da eliminação. Como é lidar com essa nova fase em que há uma percepção mais crítica do trabalho?
— Eu não me importo. A crítica às vezes te deixa mais desperto, te deixa mais motivado. Você tem que focar bem o que tem que fazer para o futuro levando em conta o que errou no passado. E, repito, estamos convencidos de que o trabalho feito em um ano foi um bom trabalho. Porque acho que os 26 jogadores que tinham que jogar a Copa do Mundo eram esses 26.
O Brasil perde o controle contra a Noruega num momento em que jogadores de comoção popular estavam em campo, como Neymar e Endrick. Entrou um pouco na conta o apelo popular? Talvez a sensibilidade de ouvir mais as pessoas e fazer uma opção que foi mais distante do que o senhor trabalhou nos meses anteriores?
— Não. Eu nunca vou tomar uma decisão por causa de uma ideia popular. Vou tomar uma decisão pensando que pode ajudar o time a ganhar o jogo.
Acabou sendo uma triste coincidência?
— Acabou sendo uma decepção. Você tem que às vezes considerar como meu trabalho. Nem sempre as coisas podem sair como eu quero.
Luiz Henrique foi um jogador importante durante o ciclo e acabou tendo poucos minutos na Copa...
— Sim, ele é um jovem que vai ter futuro na Seleção, mas é um jogador muito específico. O dia em que Raphinha se lesiona e eu pude escolher entre Luiz Henrique e Rayan, coloquei o Rayan, que foi muito bem contra Haiti, Escócia e Japão. Então, o Luiz Henrique teve menos possibilidade de ter minutos.
Houve um ruído de comunicação na ocasião da lesão do Neymar: o Santos disse que ele teria condição de treinar no dia 27 de maio e depois, já na Seleção, um exame indicou que ele precisaria de um mês para estar em campo. Como foi isso para o senhor?
— Foi uma pena, porque Neymar não teve a possibilidade de se preparar como os outros. Mas nunca pensamos em trocar Neymar por isso, porque ele tinha condição de ficar bem, como estava na partida contra a Noruega.
Mas essa situação não criou um prejuízo em detrimento de outro jogador que poderia estar pronto no primeiro jogo?
— Sim, mas, quando tivemos o comunicado do Santos, ele era problema do Santos até o dia 27. Quando chega o dia 27, depois dos exames, ele não poderia estar pronto para o primeiro jogo, mas estaria na Copa, como esteve. Por isso, pensamos em seguir com ele. No fim, foi uma decisão correta, porque o Neymar se comportou muito bem.
O senhor falou de jogadores que tiveram o ciclo encerrado. Houve uma conversa com eles sobre isso?
— Já falei com eles depois da Copa do Mundo. Falei com alguns quando tomamos a decisão definitiva e vou falar com eles, não tenho problema com ninguém. Falei com alguns neste período. Ontem (terça), o Neymar já foi muito claro na declaração de que acabou o tempo com a Seleção, e isso é um percurso natural na carreira de um jogador. Um dia ou depois, se acaba.
Voltando ao pós-jogo da Noruega, esse período mais recluso para pensar no que aconteceu é conduzido a partir de uma autorreflexão, debates com a comissão, ou o senhor também se abre para entender o que era dito aqui no Brasil?
— Eu entendo a percepção do país, a decepção, a tristeza, porque é um país especial, acima de tudo para a Seleção. Em um ano aqui, entendi muito bem. Em nível pessoal, a minha reação é mais decepcionante e triste porque um país está triste. Isso a nível interno me faz sentir muito. Além disso, não temos a possibilidade de reagir rápido. Estamos falando de 2028, de 2030... É um prazo muito longo, não há possibilidade de reagir de imediato. Tenho que aceitar isso sabendo que vai ser um período com muito mais crítica do que o normal.
E como foi a noite seguinte após o jogo com a Noruega?
— Muito ruim. Não dormi. Por isso, acho que nesse momento de dificuldade eu prefiro estar com a minha família e as pessoas mais próximas, que podem ajudar a superar mais rápido um momento de dificuldade.
Foi muito questionado o fato de apenas o Danilo retornar ao Brasil no avião da CBF após a eliminação. O senhor entende que isso é normal neste processo de luto pela eliminação?
— O jogador é diferente. Quando você perde uma Copa do Mundo, não podemos obrigar a voltar. Quando a Copa do Mundo acaba, é o clube que tem direito sobre o jogador. Não poderíamos forçar. Eu poderia voltar ao Rio, mas preferi estar no Canadá, que é um lugar onde fico muito tranquilo e posso pensar mais.
Recentemente, o Maldini e o Leonardo admitiram a procura para que você assumisse a seleção da Itália. Como foi esse contato e a recusa para continuar com o Brasil?
— Simplesmente teve contato da federação, mas não é um problema de contrato, é de compromisso. Eu tenho compromisso com o Brasil não por ter assinado o contrato. Tenho compromisso pelo ano que passei aqui, fui muito bem recebido e não quero cortar esse compromisso. Quero seguir trabalhando e seguir com a Seleção.
O objetivo é passar mais tempo no Rio neste ciclo para 2030? Viver mais o Brasil?
— Eu vivo no Rio e em alguns períodos estou na minha casa no Canadá. Eu moro no Rio, vivo no Rio, pago imposto no Rio, sou residente fiscal aqui. Isso não significa que eu não passe alguns dias na minha casa.
E o que o Carlo já tem de carioca?
— Eu gostei muito do Rio, gostei muito do Carnaval, de muitas coisas. Passei por muitos lugares no Brasil, em Trancoso, na Bahia... Todos são lugares fantásticos. Eu adoro esse país.
Do que o senhor mais gostou? Música, gastronomia...
— Uma coisa que eu gosto da comida é polenta. É um prato da minha região, e os italianos que chegaram aqui trouxeram esta tradição. A polenta é um prato de que eu gosto muito.
Voltando para o futebol, de que maneira o senhor vê a estrutura do futebol brasileiro como um todo: desde a formação até a características dos jogadores moldados cada vez mais para exportação?
— A verdade é que o Brasil sempre vai formar talentos e depois eles têm que ser acompanhados. O ideal seria obviamente que os talentosos jogassem um pouco mais aqui e pudessem evoluir mais rápido do que quando chegam na Europa e não têm espaço para jogar todos os jogos. Isso é normal. Na formação do talento, é preciso ter conexão com o clube. É o clube que forma o talento. A Seleção pode ajudar, obviamente, mas em conexão com o clube, que é fundamental. Para o futuro, queremos abrir a relação com os clubes para a formação dos talentos. No futuro, temos que focar mais na formação dos meio-campistas.
Quais jovens do futebol brasileiro já chamaram sua atenção pensando na Copa de 2030?
— Há os jovens que já estiveram conosco: Estêvão, Rayan, Endrick, esses vão ser muito importantes. O Vitor Reis, por exemplo. Nomear jogadores é complicado, mas há jovens no Brasileirão, goleiros que estão jogando e mostrando qualidade para serem potencialmente da Seleção.
Ano que vem é ano de Sul-Americano e Copa do Mundo Sub-20. Você vai estar mais próximo das categorias de base?
— Estamos mais perto da Sub-15, Sub-17, Sub-20... Temos que estar mais próximos por ser um trampolim importante para a Olimpíada. Muitos jogadores que vão estar na Olimpíada podem jogar a Copa do Mundo de 2030. Estamos em contato direto com o Paulo (Victor, técnico da seleção sub-20).
O ambiente do futebol brasileiro é cada vez mais hostil, de muita pressão. Como o senhor se vê neste cenário? Como enxerga a realidade do esporte no Brasil?
— Em um ambiente muito apaixonado pelo futebol, isso é normal. A paixão da torcida, a festa que é preparada para a Seleção. A Seleção é muito querida pelo brasileiro, mais do que em muitos países. Por isso, uma derrota afeta mais. A derrota faz parte do processo. Mas há derrotas e derrotas, e a derrota para a Noruega decepcionou a todos: a nós e a torcida. E isso tem que ser um ponto de partida para uma nova aventura e uma nova história.
E por que o torcedor brasileiro deve acreditar que a Seleção chegará mais forte na Copa América e na Copa do Mundo?
— Porque temos ferramentas a nível técnico, metodológico e competência para estar entre os melhores do mundo.


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