Isolados, idosos são vítimas constantes de violência durante a pandemia; familiares são os que mais agridem

 Durante a pandemia de coronavírus, os idosos ganharam destaque nos noticiários por causa do aumento nos casos de violência contra este público. Isoladas em casa, abrigos e abandonados nas ruas, as pessoas com mais de 60 anos se viram reféns de agressões, xingamentos, chacotas, usurpação de patrimônio, entre outros crimes. 

Os agressores? A maioria deles são familiares das vítimas - em 2019, antes da pandemia, foram responsáveis por 83% dos casos, conforme dados da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. 

A defensora pública Laise Carvalho, coordenadora da Especializada do Idoso da Defensoria Pública da Bahia, explica que a pandemia revelou para a sociedade uma realidade que estava invisível: o esquecimento dos idosos. É um público que, geralmente, precisa de mais cuidado na hora de se alimentar, tomar banho, comprar remédios e outras atividades do dia a dia. Mesmo assim, muitos precisam se virar sozinhos ou com a ajuda de vizinhos ou entidades beneficentes.

“Muitas vezes, quando a situação chega até os órgãos e instituições de defesa, os idosos estão tão fragilizados que não conseguem mais reagir e vão a óbito. Os familiares ou pessoas em que o idoso confia, como amigos próximos e cuidadores de longa data, são os que mais os violentam. Não é só a violência física, mas a psicológica, a moral, nas quais os idosos são expostos a situações vexatórias e desrespeitosas”, elencou a defensora pública. Com medo que o familiar seja preso, muitos idosos preferem não denunciar quando sofrem violência. 

Aqueles vídeos “engraçados” nos quais os idosos aparecem tentando sair de casa durante a pandemia e são barrados com a promessa de que a polícia será chamada é um dos exemplos da violência moral. As maiores vítimas são pessoas com quadro demencial ou Alzheimer. 

Já a violência patrimonial é o uso não autorizado da renda do idoso. Alguns exemplos de crime nesta seara são: quando a pessoa toma um empréstimo consignado no salário do idoso e não paga; retira dinheiro da conta dele sem avisar; utiliza os vencimentos dele para benefício próprio; tenta assumir seus bens. 

Laise afirma que ainda não foi feito um estudo durante a pandemia, mas o público idoso mais afetado pelos diversos tipos de violência é formado por pessoas do sexo feminino e negras que residem na periferia. “É importante destacar que envelhecimento não significa incapacidade. Se a pessoa idosa está autônoma e independente, deve continuar a fazer todas as suas atividades do cotidiano”, alertou. 

Com a suspensão do atendimento presencial e a adoção do regime virtual na Defensoria Pública da Bahia, as vítimas, familiares ou pessoas que sabem da violência contra o idoso têm encontrado mais dificuldade para denunciar. “Tem havido uma subnotificação porque diversos idosos não têm acesso à tecnologia e à informação sobre como realizar a denúncia. Para eles, é mais fácil ir até a Defensoria”, revelou.

Preconceito

O psicólogo Guilherme Pereira Affonso, especialista em Neuropsicologia, destaca que a vulnerabilidade social, representada por diversos tipos de preconceito, tem machucado os idosos. Os principais deles são a gerontofobia e o idadismo, que são ideias estereotipadas a respeito das pessoas com idade avançada ou das pessoas idosas, geralmente se referindo a elas de forma depreciativa. 

“Alguns exemplos: pessoas jovens se indignarem com idosos utilizando o transporte público e sentando em assentos além dos que são reservados para eles; empresas não contratarem ou promoverem pessoas seguindo algum critério de idade (mesmo sem nenhuma justificativa técnica ou racional para isso); instituições que, a partir da publicidade, demonizam o envelhecimento, colocando-o como algo bastante negativo para poder vender soluções anti-idade”, citou o psicólogo.

Ele lembra que, quando o idoso adoece e perde a funcionalidade, isso o torna mais dependente das pessoas ao seu entorno e, por consequência, alvo de violências e abusos. “O aumento da violência contra o idoso durante a pandemia pode ter relação a diversas questões. Uma delas são os problemas familiares que já existiam anteriormente, mas que a proximidade acabou exacerbando e tornou o manejo muito mais difícil. Para diversas famílias, seus idosos são problemas ou pesos, eles exigem dedicação, cuidado, tempo, dinheiro e, muitas vezes, isto frustra estas pessoas”, descreveu Affonso. 

Assim como a defensora pública Laise Carvalho, ele acredita que há uma invisibilidade social do idoso. Na avaliação dele, isto faz com que existam poucas campanhas de conscientização e poucos canais de denúncia em comparação com outras questões como a violência doméstica contra mulheres.

“Podemos observar nos idosos vítimas de violência variados tipos de sequelas. No entanto, são mais comuns sinais e sintomas relacionados ao transtorno depressivo e ansioso, com as presenças do medo excessivo, preocupação intensa, ansiedade, dificuldade para dormir, diminuição ou aumento de apetite, tristeza, pouca motivação, pouco prazer (até mesmo em atividades que antes gostavam) e isolamento social”, esclareceu. 

Affonso diz que reverter ou apagar essas questões é praticamente impossível, pois são experiências que impactam o indivíduo de uma maneira intensa. “Sempre quando falamos de abuso, violência ou qualquer outro tipo de questão relacionada, independente da faixa etária, estamos falando de intervenções em diferentes níveis”, acrescentou. Mesmo assim, ele frisa que as vítimas podem ser submetidas a tratamento psicológico e, se necessário, psiquiátrico a fim de atenuar as consequências dos abusos.

Como denunciar

Imagem: Rawpixel/ Freepik

Para garantir a volta da segurança e da dignidade da pessoa idosa vítima de violência, é necessário procurar as organizações de proteção e denunciar os abusadores. O Disque 100, as delegacias do idoso, a Defensoria Pública, o Ministério Público e os conselhos municipais e estaduais de defesa dos direitos dos idosos são algumas das opções para buscar ajuda.  

 

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