Um pouco do que penso para o futuro dessa cidade
Primeiro Ć© importante deixar claro que este texto se apoia pouco em dados tĆ©cnicos ou estudo polĆtico e cientĆfico. Trata-se apenas de um pensamento pessoal, de alguĆ©m que vive IbicaraĆ hĆ” quase 30 anos e que, nos Ćŗltimos 15, percorreu parte da extensĆ£o territorial do municĆpio, andando e observando de perto o enorme potencial hĆdrico, agrĆcola e turĆstico dessa cidade - riquezas evidentes, mas ainda pouco exploradas pelos nossos governantes.
Segundo dados do IBGE, IbicaraĆ possui cerca de 23 quilĆ“metros quadrados, o equivalente a aproximadamente 23 mil hectares, assim distribuĆdos: cerca de 11.500 hectares de mata, 8.500 hectares de pastagens e o restante dividido entre Ć”rea urbana e Ć”reas mistas. Com uma população de 21.665 pessoas (Censo 2022), com estimativa de um pequeno crescimento entre 2024 e 2025, que passa da casa dos 22 mil habitantes.
O municĆpio Ć© cortado pelo Rio Salgado, que delimita duas realidades econĆ“micas distintas: ao norte, um corredor de montanhas onde predomina a cultura do cacau; ao sul, uma regiĆ£o mais quente, com economia baseada na pecuĆ”ria leiteira.
POTENCIAL AGRĆCOLA E HĆDRICO
AlĆ©m do cacau, o lado norte do municĆpio produz, ainda que de forma desordenada e artesanal, uma grande diversidade de culturas: mandioca, aipim, inhame, banana (prata e da terra), jenipapo, pinha, jaca em abundĆ¢ncia, laranja, limĆ£o, pitanga, acerola, abacaxi, cajĆ”, milho, feijĆ£o-de-corda, cana-de-açúcar, alĆ©m de horticultura, flores exóticas e pontos isolados de piscicultura. Tudo isso sem acompanhamento tĆ©cnico adequado. Segundo relato do amigo AndrĆ© Luiz Evangelista, em outros tempos IbicaraĆ tambĆ©m produziu cafĆ©, algodĆ£o e fumo.
Nesse mesmo corredor de montanhas encontram-se as maiores riquezas naturais do municĆpio: mais de 110 nascentes que abastecem diariamente a cidade, alĆ©m de importantes recursos minerais, como grafita (grafeno) e manganĆŖs - minerais cuja extração, segundo especialistas, poderia levar dĆ©cadas e trazer riqueza para a cidade. Entretanto, nenhuma dessas riquezas supera a importĆ¢ncia da Ć”gua.
A regiĆ£o sul da Bahia, onde estĆ” localizada a cidade de IbicaraĆ, tem uma precipitação natural de chuva durante o ano que ultrapassa 1.500, de acordo com o Governo do Estado (2011/2020), o que ajuda na manutenção das nossas nascentes no lado norte da cidade.
Nossas nascentes nascem a partir da regiĆ£o da Patioba, abastecendo o distrito de Salomeia, no lado oeste do municĆpio. Nas montanhas da regiĆ£o do Luxo, ao longo da estrada do JacarandĆ”, diversas nascentes nascem no topo da serra formam o RibeirĆ£o do Luxo, afluente do Rio Salgado, responsĆ”vel por abastecer a represa do saudoso Iris Benevides, no bairro do Luxo (Paletó).
Na estrada rural da Fazenda Sossego, seguindo pelo assentamento Santa Maria, passando pelas fazendas Cruzeiro do Sul, Cachoeirinha, seguindo atĆ© o Makakoassado e o sĆtio Cantinho da Paz (Senhora de FĆ”tima), nascem diversas nascentes que descem das duas montanhas que protegem todo o seu percurso.
Mais adiante, ainda nesse corredor de montanhas, estÔ a barragem da Tupã, localizada no meio da Serra do Córrego Grande, que atualmente responde por mais da metade do consumo diÔrio de Ôgua da cidade. Segundo o estudo do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) de Ibicaraà (2010) essa barragem recebe Ôgua de aproximadamente 64 nascentes.
No lado leste do municĆpio, a Serra da Banha abriga diversas outras nascentes que abastecem as fazendas daquela regiĆ£o, o distrito EmĆlio Izabel (41) e o RibeirĆ£o da Jussara, que leva Ć”gua aos distritos de Cajueiro Novo e Cajueiro Velho.
O problema hĆdrico de IbicaraĆ existe, principalmente pela ausĆŖncia de uma barragem de acumulação. No entanto, a solução tambĆ©m estĆ” diante de nós: preservar esse corredor de montanhas por meio de polĆticas pĆŗblicas ambientais eficazes e colocar em prĆ”tica o PSA. O proprietĆ”rio rural que possui nascente em sua terra precisa ser reconhecido como agricultor de Ć”gua e remunerado pelo municĆpio para preservar esse patrimĆ“nio natural.
Agricultura: investir para produzir e fixar o homem no campo
IbicaraĆ Ć© um municĆpio de origem agrĆcola, com uma zona rural extensa e viva. Para fortalecer esse setor, sĆ£o necessĆ”rios investimentos bĆ”sicos, comeƧando por um cronograma anual de recuperação das estradas vicinais e ramais, facilitando o escoamento da produção do pequeno agricultor e pecuarista.
à fundamental que o poder público municipal disponha de uma equipe técnica com um agrÓnomo que circule regularmente pelas propriedades rurais, ouvindo demandas simples, muitas vezes resolvidas com boa vontade e planejamento. E para isso a Secretaria de Agricultura jÔ possui duas motocicletas devem ser utilizadas pela secretaria para atender diretamente ao homem do campo.
O municĆpio conta com alguns assentamentos e associaƧƵes que produzem alimentos e tambĆ©m necessitam de acompanhamento tĆ©cnico contĆnuo. O campo clama por cursos de capacitação, manejo da terra, tĆ©cnicas de plantio, irrigação e reaproveitamento de resĆduos, entre outros. Parte do alimento que chega em nossa mesa Ć© produzido pela agricultura familiar. Esse setor precisa de mais investimento e atenção.
Outro setor que precisa ser fomentado é o turismo rural ecológico. O meio rural de Ibicaraà é rico em história, belas e bucólicas fazendas de cacau, Ôreas de mata preservada, trilhas e inúmeras nascentes. O BalneÔrio da Patioba é um exemplo claro de como uma antiga fazenda pode ser transformada em espaço de lazer, descanso e contemplação da natureza.
Revitalizar a Feira Verde próxima Ć Vila EmĆlio Izabel, Ć s margens da BR-415, servindo como apoio para o pequeno agricultor daquela regiĆ£o Ć© necessĆ”rio. Outro ponto importante Ć© tirar do papel o projeto do Viveiro Municipal, que vai servir para fornecer mudas nativas, exóticas e, principalmente, de cacaueiros, a preƧos simbólicos para o pequeno agricultor. O homem do campo precisa estar devidamente cadastrado e assistido e precisa voltar a plantar cacau e morar na roƧa - uma tendĆŖncia que jĆ” comeƧa a ressurgir.
No lado sul do municĆpio, onde predomina a pecuĆ”ria leiteira, os investimentos precisam focar na abertura de poƧos artesianos em pontos estratĆ©gicos para os momentos de seca no verĆ£o, alĆ©m da instalação de tanques de resfriamento de leite. Infelizmente, o Ćŗnico tanque enviado pelo Estado para IbicaraĆ, foi instalado em uma Ć”rea de predominĆ¢ncia do cacau, evidenciando a falta de planejamento tĆ©cnico na Ć©poca.
Mais do que solicitar recursos, Ć© preciso estudar e definir corretamente onde instalar tanques, casas de farinha e poƧos. Os interesses polĆticos precisam ficar de lado para que os investimentos cheguem a quem realmente precisa. Quem mais conhece o municĆpio somos nós e por isso o benefĆcio que chega para o campo precisa ir para quem realmente precisa. Temos alguns poƧos artesianos no municĆpio sem uso, por estar em pontos e locais com Ć”gua.
Como disse um dia o saudoso presidente Juscelino Kubitschek:
“Se investirmos cinco anos na agricultura, teremos cinquenta anos de fartura.”
INFRAESTRUTURA
SAAE
A infraestrutura Ć© um dos grandes gargalos de IbicaraĆ, especialmente no que diz respeito ao abastecimento de Ć”gua. O SAAE precisa de modernização urgente, com melhorias na Estação de Tratamento de Ćgua (ETA), implantação de um floculador e um decantador, instalação de hidrĆ“metros nas casas e distritos de IbicaraĆ, substituição de antigas adutoras de amianto por tubos de PVC e, sobretudo, a construção de uma barragem de acumulação de porte mĆ©dio.
Embora uma barragem seja a solução ideal, o alto custo e a proximidade com barragens jÔ existentes em Itapé e Floresta Azul dificultam a obtenção de recursos estaduais ou federais.
Uma alternativa viĆ”vel estĆ” no topo da Serra do Córrego Grande, na fazenda de Abel de Furtuoso, onde existe uma barragem de mĆ©dio porte que pode ser recuperada. A estrutura abriga mais de dez nascentes e poderia servir como reserva estratĆ©gica nos perĆodos de seca.
Ć importante dizer que a barragem fica em Ć”rea particular o municĆpio precisa levar uma boa proposta para os proprietĆ”rios disponibilizarem o local para ser alagado, alĆ©m da reforma e ampliação da barragem. Uma sessĆ£o de uso de pelo menos 30 anos com uma boa remuneração mensal do local resolveria o problema.
SANEAMENTO BĆSICO
Este Ć©, talvez, o desafio mais complexo do municĆpio. IbicaraĆ nĆ£o possui rede de esgoto mista nem Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). Todo o resĆduo produzido na cidade Ć© despejado no Rio Salgado, transformando o nosso rio em um gigantesco esgoto a cĆ©u aberto.
A solução exige planejamento de mĆ©dio e longo prazo, com a implantação de redes separadas para Ć”gua pluvial e fluvial e esgoto e a construção de pequenas ETEs, reaproveitando os resĆduos coletados pelas ETEs e transformando em adubo orgĆ¢nico, que pode ser ofertado para o pequeno agricultor. Um projeto piloto poderia ser iniciado no novo loteamento (que estĆ” sendo construĆdo) com 150 casas no bairro do Luxo.
Pensando nos próximo 20 anos, o municĆpio poderia aproveitar a topografia natural de descida e criar um canal lateral ao Rio Salgado, conduzindo os resĆduos atĆ© a regiĆ£o da “Represa de Lauro”, onde seria implantada uma ETE Central. Seria uma solução definitiva e sustentĆ”vel.
Como iniciar com esse ousado projeto de modernizar nossas redes de esgoto, criar ETEs e trocar nossas adutoras e investir no SAAE?
Eu penso na criação de uma taxa de manutenção de nascentes e esse dinheiro arrecadado mensalmente deveria cair em uma conta independente onde um conselho (de meio ambiente) pudesse fiscalizar e esse recurso seria investido parte no Pagamento por Serviço Ambienta (PSA), na preservação das nossas nascentes e parte na reestruturação das nossas redes de esgoto e nossas adutoras.
Quem pagaria essa conta? O povo! A taxa viria na conta de Ć”gua, com isenção dos consumidores que pagam a taxa mĆnima e acrescentando R$ 1,00, R$ 1,50 e R$ 2,00 nas outras trĆŖs faixas de consumidores e uma taxa extra mensal, para o comerciante local ou atĆ© mesmo uma pequena fatia extraĆda do ISS e das licenƧas ambientais. A mĆ©dio prazo terĆamos resultado e solução para o problema do esgoto de IbicaraĆ, e o Rio Salgado agradeceria.
CALĆAMENTO E ASFALTO
Apesar de termos uma cidade quase toda calƧada, a população sofre com os constantes reparos e as famosas operaƧƵes tapa-buracos, proveniente do grande excesso de “barro borrachudo” no nosso subsolo. A Infraestrutura local precisa repensar a fórmula e fazer um estudo detalhado do nosso subsolo.
Como falei em outro tópico sobre saneamento bĆ”sico, a troca e reestruturação da nossa rede de esgoto precisa vir acompanhada de uma revitalização das nossas vias com calƧamento sextavado ou asfalto. O Governo do Estado tem um programa que estĆ” asfaltando boa parte dos municĆpios baianos. AlguĆ©m precisa chegar lĆ” com um projeto em mĆ£os e pedir. Se nĆ£o pedir nĆ£o chega e nesse caso Ć© preciso deixar as divergĆŖncias de lado e acontecer uma uniĆ£o em prol do melhor para IbicaraĆ.
SAĆDE
Na atenção bĆ”sica, IbicaraĆ apresenta bons indicadores, com 100% de cobertura por meio de 11 Unidades de SaĆŗde da FamĆlia. Existem falhas, como a falta de dentistas (em alguns postos) e os recessos de fim de ano com a falta de profissionais para atender a população. DoenƧa nĆ£o espera! Mas, Ć© importante dizer que o serviƧo funciona.
O principal desafio estĆ” na mĆ©dia e alta complexidade. Uma solução estratĆ©gica seria pactuar o hospital (que jĆ” foi do Estado e hoje funciona como um grande posto avanƧado). Penso que regionalizar para atender IbicaraĆ, Floresta Azul, Santa Cruz da Vitória e Itaju do ColĆ“nia seria a solução.
A estrutura existente comporta esse atendimento e desafogaria Itabuna e IlhƩus, alƩm de aquecer o comƩrcio local, gerando emprego e renda e movimentando a economia da cidade, fortalecendo o comƩrcio, restaurantes, farmƔcias e transporte (tƔxi e mototƔxi) dentro da cidade. Mas, para isso acontecer Ʃ preciso algumas coisas como o querer fazer; sentar com as cidades vizinhas e conversar e montar uma grande comitiva atƩ Salvador e expor a ideia para o Governo do Estado.
à preciso avançar também na regulação, ampliar equipes médicas, fortalecer a FarmÔcia do Povo e garantir ambulâncias nos distritos. A saúde de Ibicaraà é boa, mas pode (e deve) continuar melhorando.
EDUCAĆĆO
Se existe um setor que sempre nos orgulhou foi a Educação. A extinta Faculdade Montenegro levou o nome de IbicaraĆ para toda a Bahia e ainda hoje temos uma boa rede de ensino, tanto pĆŗblica quanto privada. Tanto o estado como o municĆpio atendem bem o nosso aluno, faltando para os mesmos os cursos tĆ©cnicos, para no primeiro momento entregar o jovem ao mercado de trabalho com alguma qualificação.
Apesar de termo uma boa educação, ainda sinto falta de um grande colĆ©gio estadual dentro do modelo que o Governo do Estado tem fornecido para muitas cidades baianas, tem um muito bom em Floresta Azul. O Governo do Estado precisa olhar para IbicaraĆ!
Precisamos urgentemente de um concurso pĆŗblico; requalificação dos nossos profissionais de Educação e junto com a requalificação, uma polĆtica real de reajuste salarial. O educador precisa estar qualificado e bem remunerado.
INDĆSTRIA
Esse Ć© o sonho de consumo de todo cidadĆ£o ibicaraiense que um dia viu ou ouviu falar da Coca-Cola. Independentemente do que seja feito ou como foi ou serĆ” feito, o atual ou futuro gestor ou gestora de IbicaraĆ só vai marcar e fincar o seu nome na rica e bonita história de IbicaraĆ, se conseguir via Governo do Estado ou Federal ou atravĆ©s da iniciativa privada uma indĆŗstria que gere pelo menos 200 empregos diretos para a cidade. Isso Ć© um fato irrefutĆ”vel e necessĆ”rio para colocar de vez IbicaraĆ de volta no rumo do progresso.
Tudo que descrevi parece um tanto utópico (sei que haverĆ” divergĆŖncias, pois toda unanimidade Ć© burra), mas Ć© real e possĆvel, precisando apenas de muito trabalho, planejamento, seriedade com o erĆ”rio pĆŗblico, continuidade no trabalho e o principal: dĆ” o chute inicial. Se alguĆ©m comeƧa, e dĆ” certo, o próximo governante (com certeza) darĆ” continuidade.
Arnold Coelho
Moro aqui e sonho com uma IbicaraĆ cada vez melhor



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